O uso de telas na infância costuma ser tratado como uma escolha individual das famílias. Mas, quando observado a partir das periferias, esse debate revela outras camadas — atravessadas por desigualdades, sobrecarga e ausência de políticas públicas de cuidado.
Essas são algumas das reflexões que atravessam a pesquisa “O Teto e a Tela: conversas sobre cuidado, tecnologia e famílias periféricas”, desenvolvida pelo Observatório das Mulheres Periféricas (OMPerifa) e o Nós, mulheres da periferia, em parceria com o Instituto Salve Quebrada. O estudo integra a iniciativa latino-americana Becas de Exploración Narrativa: Tejer encuentros más allá de las pantallas, com financiamento e apoio da plataforma Familias: Ahora e da organização Puentes.
Realizado entre setembro de 2025 e março de 2026, o estudo reuniu 15 mães e cuidadoras da zona sul da cidade de São Paulo e de Diadema, na região metropolitana, para investigar como a digitalização atravessa a vida cotidiana dessas mulheres e de suas famílias.
A pesquisa foi construída a partir da metodologia da Geração Cidadã de Dados, envolvendo as próprias participantes na produção, interpretação e reapropriação dos dados sobre suas realidades. Mais do que fontes, elas são reconhecidas como protagonistas na construção do conhecimento.
Ao longo do processo, ficou evidente que as telas ocupam um lugar ambivalente no cotidiano. Ao mesmo tempo em que aparecem como ferramenta de comunicação, acesso a serviços e até apoio no cuidado, também são atravessadas por sentimentos de culpa, medo e insegurança. Em rotinas marcadas pelo cansaço, pelo trabalho que não espera e pela ausência de rede de apoio, o celular muitas vezes se torna a pausa possível — o tempo de fazer uma comida, tomar um banho ou simplesmente respirar.
Mas essa presença constante também traz preocupações. As participantes relatam dificuldades em acompanhar o que as crianças acessam, mudanças de comportamento, ansiedade e desafios para estabelecer limites. O que aparece não é um uso descontrolado por descuido, mas uma tentativa diária — e muitas vezes solitária — de equilibrar proteção, acesso e sobrevivência.
O que a pesquisa revela sobre cuidado, tecnologia e desigualdade
Os dados e relatos reunidos pela pesquisa apontam para um conjunto de padrões que ajudam a entender como as telas atravessam o cotidiano das famílias:
- A internet já faz parte da rotina — mas de forma desigual: A conexão está presente em todas as casas das participantes e o celular ocupa um papel central no dia a dia. Ele é usado para comunicação, acesso a serviços, trabalho, estudo e entretenimento. Ao mesmo tempo, o acesso não elimina desigualdades: o desafio passa a ser a qualidade do uso, o letramento digital e a mediação, especialmente quando envolve crianças.
- O celular ajuda a dar conta do dia — e revela a sobrecarga: O uso das telas aparece com mais intensidade nos momentos de maior cansaço e ausência de apoio. Nesses contextos, o celular funciona como estratégia possível para que as mães consigam realizar tarefas básicas ou trabalhar. Mais do que uma escolha, ele surge como resposta às condições concretas do cotidiano.
- Quando o Estado falta, as telas ocupam esse espaço: A presença constante das telas está ligada à ausência de políticas públicas de cuidado, à falta de espaços seguros de lazer e às jornadas exaustivas de trabalho. A ideia de “babá eletrônica” não aparece como descuido, mas como tentativa de lidar com um cenário em que outras alternativas não estão disponíveis.
- As mães refletem, cuidam e tentam estabelecer limites: As participantes não estão indiferentes ao tema. Pelo contrário, demonstram preocupação, buscam conversar com os filhos, estabelecer regras e acompanhar o uso da internet. Ainda assim, fazem isso em meio a dificuldades estruturais que tornam esse acompanhamento parcial e desigual.
- Cuidar não pode ser responsabilidade individual: A pesquisa reforça que o debate sobre telas não pode ser reduzido às escolhas das famílias. O cuidado precisa ser compreendido como responsabilidade coletiva — envolvendo políticas públicas, condições de vida, redes de apoio e também responsabilidades das plataformas digitais.
Quando a escrita vira espaço de expressão e memória
Como parte do processo da pesquisa, as participantes também foram convidadas a transformar suas experiências em palavras. A partir de uma oficina de escrita criativa, mães e cuidadoras escreveram sobre suas rotinas, seus cansaços, seus medos e também sobre seus desejos e sonhos para o futuro.
Os textos deram origem à zine “Quando não há espetáculo, sonhamos”, uma publicação construída a partir das próprias narrativas das participantes. Mais do que um produto final, a zine é parte do método: ela reconhece essas mulheres não apenas como fontes, mas como autoras de suas histórias e produtoras de conhecimento.
Inspirada em experiências de escrita de si e nas escrevivências de Carolina Maria de Jesus, a oficina abriu espaço para que cada uma escrevesse a partir de sua própria linguagem, sem a exigência de normas formais. O que aparece nos textos são camadas profundas da experiência de cuidar: a sobrecarga, a solidão, o amor e a tentativa constante de seguir, mesmo quando o cotidiano pesa.
A escolha do formato também não é casual. Historicamente associada a produções independentes e coletivas, a zine permite que vozes muitas vezes silenciadas circulem fora dos circuitos tradicionais. Aqui, ela funciona como continuidade da pesquisa — ampliando o alcance das histórias e garantindo que elas sejam contadas por quem as vive.
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