conversas sobre cuidado, tecnologia e famílias periféricas

O Teto e a Tela é um projeto que busca compreender como o cuidado é vivido nas periferias em um contexto de crescente digitalização da vida cotidiana. Partindo das experiências de mães e cuidadoras, o projeto investiga como as telas se inserem nas rotinas familiares não de forma isolada, mas atravessadas por desigualdades, sobrecarga e ausência de políticas públicas.
O projeto se desenvolve a partir da escuta de 15 mães e cuidadoras de territórios da zona sul de São Paulo — como Jabaquara, Cidade Ademar, Pedreira e Jardim Ângela — e do município de Diadema, na região metropolitana. São territórios marcados por desigualdades urbanas, mas também por fortes redes de cuidado, convivência e resistência.
Mais do que analisar o uso da tecnologia, o projeto propõe um deslocamento: olhar para o digital a partir do território e de quem sustenta o cuidado no dia a dia. Nesse processo, reconhece mães e cuidadoras periféricas como protagonistas na produção de conhecimento sobre suas próprias realidades, criando espaços de escuta, troca e elaboração coletiva.
Confira alguns momentos do encontro:
Fotos: Bruno Amaral

Desenvolvida com base na metodologia da Geração Cidadã de Dados, a pesquisa articula dados sobre território, acesso à internet e uso de dispositivos com as experiências concretas dessas mulheres, produzindo um retrato situado das relações entre cuidado e tecnologia nas periferias.
Ao longo do processo, a pesquisa organiza e dá visibilidade às contradições vividas no cotidiano: o uso das telas como apoio e pausa em meio à exaustão, mas também como fonte de preocupação, culpa e conflito. Esses relatos são analisados em diálogo com dados sobre desigualdade urbana e conectividade, evidenciando como o digital ocupa espaços deixados pela ausência de tempo, de infraestrutura e de políticas públicas.
Mais do que descrever um fenômeno, a pesquisa produz conhecimento a partir das interpretações dessas mulheres, reconhecendo suas experiências como centrais para compreender os desafios e as possibilidades do cuidado em um mundo cada vez mais mediado por telas.
Produzida pelo Nós, mulheres da periferia a partir da roda de conversa do projeto “O Teto e a Tela”, o texto parte das falas de mães, avós e cuidadoras periféricas para narrar, a partir de suas próprias experiências, as contradições do uso das telas no cotidiano do cuidado.
A reportagem mostra como o celular se insere na rotina não como escolha ideal, mas como resposta ao cansaço, à sobrecarga e à ausência de rede de apoio. Entre o alívio momentâneo e a preocupação constante, as mulheres descrevem os impactos do uso das telas na vida das crianças e nas dinâmicas familiares.
Ao articular essas vivências com dados e contexto, o texto desloca o debate sobre tecnologia para além de julgamentos individuais, evidenciando como o digital ocupa os vazios deixados pela falta de tempo, de infraestrutura e de políticas de cuidado nas periferias.


Esta zine foi produzida a partir da oficina de escrita criativa realizada durante o projeto “O Teto e a Tela”. Inspirada na obra de Carolina Maria de Jesus, a atividade convidou mães e cuidadoras periféricas a transformar suas experiências em palavras, como forma de registrar a vida e os sentimentos.
A publicação reúne textos escritos por essas mulheres — em forma de cartas, desabafos e afirmações — que atravessam temas como cuidado, cansaço, medo, maternidade e futuro. Mais do que registros, as produções as afirmam como autoras de suas próprias narrativas e formas de compreender a realidade.
A escolha do formato também é parte do projeto: historicamente ligado a produções independentes e coletivas, as zines permitem circulação acessível e autonomia narrativa, criando espaço para que vozes frequentemente silenciadas possam ser ouvidas e preservadas.
/sh